REVISTAS MASCULINAS E PLURALIZAÇÃO
DA MASCULINIDADE

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REVISTAS MASCULINAS E PLURALIZAÇÃO DA MASCULINIDADE

 

NOS ANOS 60 E 90
Marko Monteiro

No âmbito do feminismo e dos estudos sobre gênero, muito se tem escrito a respeito de uma suposta crise da masculinidade, e com o crescimento do campo de estudos de gênero no Brasil e no mundo, discursos sobre a masculinidade tomam força e ganham legitimidade nos meios acadêmicos, onde antes dominavam discursos sobre a condição da mulher. Estes discursos acadêmicos (por exemplo Badinter, 1994; Morgan, 1992; Connel, 1995; Nolasco, 1993) têm uma série de características em comum, poderíamos dizer pontos consensuais, no que diz respeito a mudanças nas relações de gênero.

Um destes pontos é o ressurgimento do feminismo nos anos 60 e 70. Na crise atual, e em crises semelhantes de masculinidade no passado (Badinter, 1994; Morgan, 1992), sempre é o questionamento feminino o elemento mais importante. Outro elemento de ruptura que se associa às mais diversas crises da masculinidade na história são os "efeminados", os "pederastas", os "homossexuais" e, atualmente, os "gays"; ou seja, homens que recusam de forma radical o desejo exclusivo pelo sexo oposto, vão em contra a heterossexualidade compulsória.

O argumento principal que pretendo apresentar neste trabalho é que estas duas rupturas importantes na economia de discursos da sociedade brasileira, do feminismo e dos gays, vêm desde os anos 60 e 70 alterando a forma como se encara a masculinidade. Ou seja, as revistas brasileiras vêm paulatinamente encarando a masculinidade como algo a ser problematizado, algo que não é matter of fact, mas sim um tema a ser explorado, questionado e debatido. Se nos anos 70 esse debate se dava em torno dos movimentos sociais questionadores do patriarcado e da heterossexualidade compulsória, atualmente temos (além destas influências já citadas) uma crescente pluralização do campo das masculinidades possíveis. Ao meu ver, este contexto atual, o qual abordarei principalmente através do mercado de revistas masculinas, deve muito da sua conformação atual aos questionamentos levantados no final dos anos 60 pelos mais diversos movimentos sociais.

Este trabalho busca perceber, associando minhas análises anteriores, de revistas dos anos 60 e 70 (Monteiro, 1997) e sobre revistas masculinas atuais (Monteiro, 1998) (ambas voltadas para o aspecto da masculinidade) como certas rupturas no discurso sobre relações de gênero criam hoje um contexto de referenciais plurais de masculinidades. Este contexto antigo, referencial único para o homem e que podemos descrever como sendo a relação necessária e hierárquica com o sexo oposto (heterossexualidade compulsória, ou o "heteromachismo") perde terreno. Proliferam contemporaneamente os mais diversos estilos de vida, associados de alguma forma ao "ser homem".

O objetivo, ao recorrer a materiais tão diversos, é exatamente o de estabelecer uma certa continuidade entre fenômenos do início dos anos 70 na revista Ele Ela e o contexto presente do mercado de revistas masculinas. Hoje esta continuidade pode ser estabelecida quando vemos que, se nos anos 70 a hegemonia do masculino estava sendo questionada por feministas e gays, o que apontava para um questionamento do referencial único patriarcal para o homem, atualmente este referencial único deixa de existir. Em seu lugar assistimos a uma proliferação do que podemos chamar de "estilos de masculinidade", nem sempre coerentes entre si, e que se associam de várias formas ao mercado de consumo.

Estou sugerindo que o mercado de revistas atualmente explora à exaustão os mais diferentes nichos de mercado , que representam estilos de masculinidade (estilos de vida associados à "masculinidade") diferenciados e múltiplos, muitas vezes até mesmo antagônicos entre si. Revistas de negócios, de moda e comportamento, revistas para gays, pornográficas ou voltadas para o esporte, todas brigam entre si por espaço no mercado. Mesmo dentro de um nicho específico, como revistas gays, eróticas ou de esporte, este fracionamento ocorre: nichos dentro de nichos.

Assim, aquilo que no início dos anos 70 era buscado pelos movimentos sociais, uma ruptura ampla com o referencial patriarcal de homem, tido como único e hegemônico hoje pode ser encontrado por exemplo no mercado de revistas masculinas. Este mercado fraciona o público masculino em estilos de vida diferenciados, criando um contexto que antevê uma subversão da possibilidade de um referencial único para a masculinidade, ou a própria idéia de masculinidade como referencial identitário principal, descolado das outras referências de estilo que circulam na sociedade.

 

Ele Ela: Rupturas

A revista Ele Ela surge em 1969, num contexto cultural conturbado e onde discussões como o uso de LSD, a revolução sexual, e o feminismo davam o tom do debate público. A revista surge exatamente como alternativa moderna para o leitor interessado nas questões novas daquele momento, e as relações entre os sexos sempre foram um elemento importante da sua pauta. Sua proposta editorial abordava assuntos de interesse para o "casal moderno," que compreendia que o mundo estava mudando e que estava interessado em discutir questões como casamento, feminismo e liberação sexual. O editorial seguinte é um exemplo deste tema fundante na revista:

Quando Ofélia não é mais um exemplo

Ao contrário dos demais personagens shakespearianos, Ofélia não chega a ser um símbolo, é apenas um mau exemplo: o do amor infeliz pelo doce príncipe problemático que não tinha tempo para amá-la. Compensando-a de sua desventura, Shakespeare enfeitou-lhe a morte trágica com flôres.

A mulher moderna não pretende repetir o drama de Ofélia, e, por isso, ao suicídio romântico prefere a vida, e, na vida, prefere conhecer-se a si mesma e conhecer os homens. Tal fórmula evitará que ela termine afogada em suas angústias - e, com flôres ou sem flôres, a mulher já está cansada das angústias que a marcaram por tanto tempo.

Ele Ela, neste seu segundo número, continua mostrando a face real dos problemas mais íntimos do homem e da mulher modernos. Exemplos como o de Ofélia, situações típicas e ilustrativas dos mais diversificados conflitos atuais encontram, nas páginas que se seguem, um estudo pormenorizado e sincero que muito ajudará ao homem e à mulher na busca da felicidade comum e do comum destino. (Ele Ela, ano 1, número 2, junho de 1969).

Inúmeros artigos da revista Ele Ela vão discutir o fim do casamento, o fim da família, a revolução sexual, a liberação das mulheres e o uso de drogas. Influenciada por discussões que ocorriam basicamente nos EUA, na Europa e na Austrália, a revista busca dar conta desses elementos de mudança nos costumes. Mas os questionamentos vindos de fora eram relidos de acordo com o contexto brasileiro, ainda bastante adverso a tais questionamentos, o que acabava criando discursos incongruentes. Por exemplo, no artigo seguinte intitulado "A dificuldade de ser fiel":

 

Dispor livremente do próprio corpo não foi uma dádiva apanhada no ar pelas mulheres desta segunda metade do século XX. É, de certa forma, o coroamento de uma longa luta pela emancipação feminina iniciada há muito tempo. No decorrer dessa luta, a mulher foi conquistando palmo a palmo os seus direitos: o de trabalhar, o de ter personalidade jurídica, o de votar e ser votada. Em nossos dias, finalmente, ela deixa de ser escrava do seu próprio sexo. E porque encaram a liberdade da mulher como uma concessão e um pecado, muitos homens tendem a confundir esta libertação com libertinagem. Ora, a imagem da mulher emancipada não suprime a imagem da mulher essencialmente pura, basicamente fiel. (Ele Ela, ano 1, número 8, dezembro de 1969).

Aqui a discussão se refere à instituição do casamento e do conceito de fidelidade que era esperado somente das mulheres. O questionamento se refere exatamente a isso: de que o casamento não deve ser uma prisão para as mulheres, já que os homens não são, socialmente, obrigados a serem fiéis. Mas a discussão da revista vai no sentido tradicionalista, de reforçar a instituição do casamento. Ao ler o artigo chegamos à conclusão de que o homem também deve ser fiel à esposa, e que a liberação da mulher e a mudança dos costumes não altera em nada a posição da mulher, que é "essencialmente pura, basicamente fiel".

Mas vemos, também, como a identidade masculina começa a ser problematizada. A revista não deixa de lado, na sua discussão sobre a mudança dos costumes, o impacto que estas mudanças causam no homem. Por exemplo, sobre o efeminamento do homem moderno, no artigo "Até que ponto o homem é feminino?"

No início, somente os rapazes duvidosos davam à boa apresentação o cuidado que era próprio das mulheres. Hoje, a maioria dos homens demora mais diante do espelho e submete-se a tratamentos quase femininos. (Ele Ela, ano1, número 8, dezembro de 1969).

Esses questionamentos à masculinidade que a revista trazia, entretanto, não se radicalizam até que surgem, no discurso da revista, o movimento feminista contemporâneo e o movimento gay, ou Gay Power, ao que a revista se refere como o "poder alegre". Isto é interessante por ser anterior à consolidação de uma identidade gay no Brasil tal qual nós a compreendemos hoje, ou seja, anterior a qualquer movimento de identidade gay no país, que buscava uma legitimidade para práticas sexuais específicas sob um rótulo unificado de "gay", associado ao movimento social.

O ressurgimento do movimento feminista no início da década de 70 marca a mudança mais drástica na economia dos discursos sobre gênero da revista. Esta, que antes usava as noções de "mulher liberada" ou "emancipação da mulher", aludindo à Revolução sexual, agora se confronta com um movimento feminista radical, atuante e mundializado, irradiando dos EUA e da Europa e invadindo paulatinamente terras brasileiras. Este processo se delineia claramente quando analisamos a "atitude" da revista frente ao feminismo ou as opiniões expressas nos artigos que lidam com este movimento social.

Podemos esquematizar o argumento da seguinte forma: a revista sempre foi, de alguma maneira, simpática aos ventos de modernidade que sopravam no período, os quais pregavam uma idéia genérica de emancipação feminina, incluída na liberalização dos costumes promovida pela chamada Revolução sexual. A revista busca se firmar, pelo menos quando surge, em 1969, como veículo de discussão desses novos valores e novas dinâmicas sociais. Neste sentido, vago a revista se mostrava receptiva à noção de emancipação feminina, mesmo que resguardando a pureza, integridade e fidelidade da mulher.

Tanto isto ocorre que a atitude da revista ao comentar o (res)surgimento do feminismo contemporâneo é bastante receptiva. Mas com o passar do tempo, com a difusão mundial e crescente radicalização do movimento, o qual começou então a operar mudanças visíveis na sociedade, a revista migra para um anti-feminismo, que se generaliza na mídia e nos meios acadêmicos brasileiros de esquerda à direita (Alvarez, 1990; Goldberg, 1987).

Os trechos que seguem são um exemplo dessa receptividade inicial da revista à idéia de emancipação feminina. O primeiro, no artigo intitulado "A mulher de 15 anos", o da Revolução sexual:

Quase um século se passou desde as primeiras reivindicações femininas. Chegamos a 1970. Desde 1959 foi desencadeado um processo denominado Revolução sexual, que abrange tôdas as formas de comunicação e se faz cada vez mais forte e presente, sendo o elemento mais persecutório para adolescentes. Impressionados, se preocupam em ser imagens do sexo e despertar nos outros desejo e insinuações sensuais. O trabalho feminino virou rotina, assim como fumar em público, fatos inconcebíveis antigamente. A pílula anticoncepcional diária, mola importante na Revolução sexual, está perto de ser ultrapassada pela injeção anticoncepcional com duração de seis meses. A mulher deixou de baixar a cabeça ao dizer sim, ao dizer eu quero, eu posso, eu vou fazer. (Ele Ela, ano 2, número 20, dezembro de 1970).

O segundo, no artigo "Mulheres de todo o mundo: uni-vos", marca na revista o início do feminismo contemporâneo, que além de receptivo critica a situação brasileira:

Adotando como sua a clássica palavra de ordem aos operários, as mulheres do mundo inteiro lançam uma nova e decidida ofensiva para demolir as estruturas de uma sociedade baseada na superioridade masculina. Não são mais as sufragistas do começo do século, que se contentavam em obter o direito de voto. Hoje elas contestam tudo, rebelando-se abertamente contra o ‘chauvinismo masculino’ e as discriminações sociais do que chamam ‘sexismo’. Formadas à sombra dos vivos debates políticos dêste pós-guerra, estas rebeldes de 1970 não fazem por menos: não pedem igualdade - exigem.

[...]

O segundo sexo está abrindo frentes de combate no mundo inteiro. Mas no Brasil as mulheres permanecem inertes, apegadas ao comodismo da passividade. (Ele Ela, ano 2, número 21, janeiro de 1971).

Este segundo artigo, que trata exatamente do surgimento do feminismo contemporâneo, pode ser dito "fundador" deste discurso nas páginas de Ele Ela. Por esta razão vários termos, como "sexismo" e mesmo "feminismo", não possuem na época o mesmo significado que eles contém hoje. Para o nosso olhar, ou a nossa leitura, estes conceitos pressupõe toda a trajetória feminista de quase 30 anos. Nesta época, em 1971, estes termos ainda estavam em processo de formação semiológica. Ou seja, as mulheres estavam ainda lutando para estabelecer sentidos como "patriarcado" e "emancipação da mulher", uma emancipação muito mais profunda do que aquela proveniente da Revolução sexual.

O trabalho feminino se torna uma temática da revista, que se vê confrontada com a realidade da mulher no trabalho e com a insistência feminista de que este trabalho e estas mulheres sejam valorizados. A revista, por exemplo, publica uma série de artigos neste período sobre esta questão, intitulados "Vale a pena ser...", discutindo profissões, como engenheira, dona de casa e atriz, por exemplo. Um dos mais interessantes é o "Vale a pena ser dona de casa?" (Ele Ela, ano 3, número 29, setembro de 1971), no qual o trabalho doméstico é encarado como trabalho (uma temática do feminismo) e não como obrigação ou natureza da mulher, e a dupla jornada é mencionada.

Além das mulheres, dentro da categoria homem haviam aqueles que recusavam de forma radical os papéis tradicionais da masculinidade . O movimento gay, ao buscar dar visibilidade e legitimidade para o "amor entre pessoas do mesmo sexo", como diz a revista, causou também um impacto na hegemonia da masculinidade tradicional

Ao contrário do feminismo, a homossexualidade e qualquer expressão sua nunca teve aceitação nenhuma, sendo tachada invariavelmente de "desvio" e de "doença". Mas a revista se vê forçada, dentro da sua proposta de modernidade, a dar conta da questão, dando então visibilidade ao gay power nos EUA e na Europa, devido à crescente influência do movimento nesses países. Num longo artigo intitulado "As tristezas do Poder Alegre" (Ele Ela, ano 3, número 36, abril de 1972), vemos uma discussão desses movimentos no exterior. Podemos estabelecer este artigo, assim como o anterior, sobre o movimento feminista contemporâneo, como fundante de um discurso diferenciado sobre a masculinidade na revista.

Da mesma forma que tratou o feminismo, a revista aborda termos, tal qual "gay", de forma distanciada, pois a palavra acabava de ser importada para o português (tanto que se falava de "alegres", uma tradução literal que hoje não remete a nada).e não possuía a carga semântica acumulada que hoje possui, depois da consolidação de uma certa identidade gay. Ou seja, o conceito está em "formação semiológica". Entendo por "formação semiológica" (entre aspas porque não é um conceito elaborado) o processo pelo qual uma posição de sujeito (como gay), necessariamente associada a práticas sociais e a embates políticos, se configura e se impõe como possibilidade de sentido na linguagem corrente.

O preconceito da revista, ao abordar os temas do movimento gay e da homossexualidade, como já mencionei, é tão forte que a maneira mais simpática e neutra com a qual a revista se refere ao tema é "a mais discutida e possivelmente a mais disseminada forma de desvio do comportamento sexual humano" (Idem, pg. 87). No artigo supra citado ("As tristezas do Poder Alegre") a linguagem utilizada é propositadamente irônica em diversos trechos, quase ridicularizando as pretensões do movimento, como mostra o seguinte trecho da introdução:

 

De uns tempos para cá, e aproveitando as reivindicações do grupos minoritários da sociedade, surgiu um movimento que a si próprio se intitulou de "poder alegre". Na verdade, não se trata de um poder, nem chega a ser alegre. O movimento procura legalizar o homossexualismo, conferindo-lhe um status de absoluta normalidade humana. Aqui, analisamos a dura realidade dos fatos. (Idem, pg. 83).

Em outro trecho, a legenda ao lado de uma foto de dois guardas apoiando o rosto com a mão, num gesto de perplexidade:

 

Vencida a batalha na Inglaterra [a homossexualidade entre adultos deixou de ser crime na Inglaterra em 1967], o poder alegre procura obter nova vitória nos Estados Unidos, onde as passeatas e comícios são cada vez mais freqüentes. Dentro do tradicional espírito democrático daquele país, a polícia se limita a guardar a ordem, mas a cara dos policiais reflete a própria atitude da maioria do povo. (Idem, pg. 86).

A ironia com a qual a revista trata a questão aparece também numa seção de cartas, na qual um leitor de São Paulo escreve:

 

[pai]- Meu filho anda muito preocupado com as suas amizades. Tem rapaz assim em volta dêle - e isso o impede de namorar as môças de sua idade. Reconheço que êle é muito bonito mas não creio que seja anormal.

[Ele Ela] - O caso é delicado, seu João de Deus. Por mais amizades masculinas que seu filho tenha, sempre haveria tempinho para dar umas voltas com môças, desde que êle quisesse mesmo. O fato de o senhor achar seu filho muito bonito é bastante inquietador. Se o senhor acha isso, imagina os outros que não são pai dêle! Da próxima vez que tiver filhos, faça-os bem feios, pois assim o senhor ficará sem êste peso na consciência. (Ele Ela, ano 2, número 23, março de 1971).

Em outras palavras, a revista concebe a homossexualidade tão claramente como uma aberração e um desvio da natureza que acaba por aceita discursos a favor destas práticas, mas, inevitavelmente, com humor irônico. Pois aceitar o comportamento homossexual enquanto natural parece-lhe ser algo por demais ridículo para ser levado a sério. Apesar disso, é válido sugerir que a própria presença desse discurso na revista mostra que o movimento gay já era um tema com o qual devia-se lidar obrigatoriamente, algo que não podia mais ser ignorado - com ou sem ironia.

Já em 1971, com esta avalanche de críticas à masculinidade tradicional, já vemos sinais de repulsa ao feminismo e de revolta contra as "minorias". O discurso tradicional, acuado por críticas, transforma o homem em vítima e busca salvá-lo da destruição, como afirma o artigo "Homem, com orgulho":

De uns dez anos para cá, ser macho é sinônimo de grosso, cafona e superado. As minorias se somam e formam um todo quando o assunto é derrubar o homem-homem. Contra estes preconceitos é preciso que alguma coisa seja feita. E já - antes que as minorias o destruam e ele passe a ser um marginal da história e da vida. (Ele Ela, ano 3, número 29, setembro de 1971).

Num outro artigo desse mesmo número, intitulado "A mulher de verdade", a revista traz o depoimento de uma ex-militante feminista que abandona o movimento, denunciando a "opressão feminina" e descaracterizando todos os argumentos feministas com noções do senso-comum e apelando para as concepções tradicionais de masculinidade e feminilidade, que se tornam lema para a crescente oposição ao feminismo, especialmente forte no país. Vemos então o surgimento de discursos como o de que as feministas não são mulheres de verdade, são mal-amadas e masculinas:

Em todas ou quase todas líderes feministas com quem convivi nos últimos 3 anos, nunca vislumbrei qualquer sinal de verdadeira feminilidade. É verdade que muitas se pintam, algumas se vestem razoavelmente, poucas são felizes nas suas relações com os homens. [...] No fundo, há um ressentimento mal disfarçado em relação ao sexo masculino. (Idem, pg.18)

Ou então enaltecendo uma natureza feminina, presa ao lar, de modo pouco convincente:

A mulher deve ser a fêmea e assumir esta condição. Deve ser bonita, desejável, deve ser mãe. Deve cuidar da casa e dos filhos e esperar o marido de volta do trabalho bem disposta e arrumada. É exatamente para isto que ela existe. E, longe de diminuí-la, isto só pode engrandecê-la. Afirmar que tudo isso leva o sexo feminino ao aniquilamento intelectual e à submissão, é desconhecer as possibilidades da tecnologia atual. A verdade é que sempre sobra tempo para ler, para escrever, para pintar, sei lá, para criar. Isto é até um privilégio, pois nem sempre os homens dispõe deste tempo. (Idem, pg. 20).

Num outro artigo, "Tenham piedade dos homens", a mensagem é de que o homem também é vitimado pelo sistema. Ou seja, a reação ao feminismo não é, aqui, o anti-feminismo, nem a recusa completa do homem, mas a valorização do homem e a constatação de que o homem é de certa forma oprimido pelos padrões tradicionais de masculinidade. Essa é a reação dos movimentos de homens pró-feministas que surgem associados ao feminismo (para uma perspectiva atual do movimento de homens, ver Connel, 1995).

Já há muitos que querem ver-se como são: os membros do Movimento pela Libertação dos Homens, nos Estados Unidos, estão decididos a isso. Querem entender melhor as mulheres, querem entender melhor a si próprios, editam em comum com outros clubes do mesmo tipo a revista chamada Brother e estão abertos a todos aqueles que não conseguem mais desempenhar o tradicional papel do homem: "Não podemos chorar. Somos máquinas e foi a sociedade que nos inventou. Vivem nos dizendo que devemos ser heróis das mulheres, potências esportivas, intelectuais, êxitos administrativos, lutadores. Ora bolas. Nós não somos nada disso". (Ele Ela, ano 3, número 30, outubro de 1971:61).

Em todos estes exemplos vemos como muda o tom dos discursos a respeito da masculinidade. Não se pode mais ignorar o fato de que pesadas críticas às formas tradicionais de vivenciar a masculinidade estão presentes na sociedade, e que estas críticas partem de grupos sociais que vivenciam o gênero de forma diferenciada, e refiro-me aqui tanto às feministas quanto aos gays, protagonistas destes movimentos de questionamento. Vemos pela primeira vez rupturas dentro do campo do masculino, onde alguns homens vão se aliar ao movimento das mulheres, outros vão recusá-lo energicamente, e outros ainda vão recusar à heterossexualidade como referencial único e buscar no Gay Power outras possibilidades de identidade.

Não podemos nos esquecer de que estes personagens, que pululam nas páginas da revista, não refletem a pluralidade de possibilidades do real e das práticas de gênero de nossa sociedade. Entretanto, são referências que reflexivamente (Giddens, 1991) interagem com estas práticas e oferecem-nos uma porta de entrada para discutirmos mudanças perceptíveis nas mesmas. O caso dos gays é antológico por representar a articulação contemporânea de uma identidade ao redor de um número de elementos de estilo de vida, elementos estes que antes não se associavam daquela forma, nem com as mesmas conotações. Nos anos 90 esta identidade, que nasceu de forma explosiva em 1969, já possui uma legitimidade enquanto estilo de vida e enquanto nicho de mercado, o que nenhum dos comentários irônicos da Ele Ela poderia prever.

Da mesma forma, outros estilos de vida associados ao homem e à masculinidade ganham espaço crescente, fazendo dos questionamentos revolucionários daquela época normas editoriais de revistas com amplas tiragens. Se antes era impensável e subversivo o homem tomar cuidado com a aparência, por exemplo, nos anos 90 surgem estilos de vida para os quais tais preocupações são tão vitais e necessárias quanto gostar de mulher.

O mercado de revistas masculinas contemporâneo

Até aqui mencionei várias vezes os termos "estilo de vida" e o termo associado "estilo de masculinidade". A fim de esclarecer um pouco os fundamentos teóricos destes conceitos e adentrar na discussão sobre masculinidades contemporâneas (onde o estilo de vida ameaça subverter a legitimidade de um conceito único de masculinidade) farei uma breve discussão do conceito de reflexividade, atualmente sendo debatido entre vários autores (Giddens,1991; Beck, 1996 e 1997; Lash, 1993 e 1997). Estes teóricos vão, ao buscar reorganizar a compreensão dos sujeitos na contemporaneidade, utilizar-se de conceitos como ‘reflexividade’ e ‘estilos de vida’.

Para resumir um pouco a discussão, pensar num sujeito reflexivo é negar que este seja conformado por estruturas sociais exógenas a ele ou que ele seja absolutamente livre (como numa teoria de ação racional) para escolher aquelas referências que para ele fazem sentido, ou que agregarão à sua "identidade". O sujeito reflexivo necessariamente convive num contexto de incerteza ontológica, no qual não existem verdades metafísicas ou estanques. Dentro desta incerteza existencial ele é obrigado a compor reflexivamente uma narrativa do seu self, a partir de uma pluralidade de discursos abstratos que circulam pela sociedade. Esta "narrativa do eu" pode ser pensada como subjetividade que se materializa na forma de um estilo de vida associado ao mercado de consumo (Giddens, 1991, 1993).

Ora, é neste sentido que compreendo a crise da masculinidade hegemônica atual sendo debatida academicamente. Estamos vendo desde os anos 70 esta transição para um contexto de incerteza existencial, de dúvida radical no campo do gênero, no qual não é mais possível pensar numa masculinidade única e essencial. Pelo contrário, proliferam os mais diversos discursos sobre a masculinidade, no mais das vezes antagônicos entre si, que buscam todos legitimar-se. Como se torna impossível a qualquer um deles se sobrepor a todos os outros, cada sujeito "masculino" é obrigado, na sua existência de "homem", a viver neste contexto de dúvida e a compor reflexivamente uma "masculinidade" para si a partir destas referências diversas.

Note-se que coloquei todos estes termos ("homem", "masculinidade", "masculino") entre aspas, já que eles em si não possuem nenhum conteúdo essencial, descolado das referências acionadas reflexivamente pelos sujeitos. Neste sentido é que sugiro que o contexto atual de pluralidade subverte a possibilidade de uma masculinidade hegemônica enquanto referência única para a "identidade" dos "homens". De fato, podemos antever a possibilidade de que não faz mais sentido falar em "homens" ou em "masculinidade", termos que implicam num conteúdo comum essencial a todos os sujeitos "masculinos". Deveríamos ao contrário pensar em sujeitos reflexivos, onde diversas masculinidades são acionadas reflexivamente na narrativa do self de cada um, associadas também a outras referências de estilo.

Esta multiplicidade se torna facilmente visível no caso do mercado atual de revistas masculinas, as quais agora comparo com a revista Ele Ela. Atualmente se configuram no mercado editorial brasileiro uma multiplicidade de nichos de mercado distintos, cada um destes com um ou mais referenciais principais, onde a concorrência entre revistas ocorre mesmo dentro de cada nicho, como já foi dito.

Nessa lógica de "pluralidade" e de "necessidade de escolha", Giddens introduz o conceito de "estilo de vida" (op. cit., pg. 80-81). Pois, no contexto atual, onde coexistem uma pluralidade de referenciais legítimos, onde a tradição não mais fornece o quadro de possibilidades existenciais único, acarretando numa condição de incerteza ontológica do indivíduo, "estilo de vida" se torna uma expressão da própria subjetividade do indivíduo. Ou seja, estilo, neste quadro conceitual, não se refere somente à esfera do consumo ou da aparência, mas se refere à narrativa de vida, do self, do sujeito. Construir estilos de vida aqui pode ser pensado como constituir subjetividades. Na sua definição:

A lifestyle can be defined as a more or less integrated set of practices which an individual embraces, not only because such practices fulfill utilitarian needs, but because they give material form to a particular narrative of self-identity. (Giddens, 1991:81).

Giddens diz também (op. cit., pg. 82) que o estilo de vida pressupõe um aglomerado de hábitos e predisposições, e portanto tem uma certa unidade. Isto possibilita ao indivíduo uma sensação de segurança ontológica ou existencial, pois esta é a busca de um conjunto de referências mais ou menos fixas num mundo povoado pela incerteza e pelo contingente. Mesmo tendo esta coerência, no entanto, Giddens reafirma (op. cit., pg. 81) que todas as opções feitas são passíveis de serem questionadas e revistas reflexivamente, incorporando outros referenciais. Ele coloca também que nem todas as opções estão disponíveis para todos, e que a escolha, portanto, não se faz completamente livre de coerções. Há elementos de classe social, maior visibilidade social de certos estilos de vida sobre outros e pressões de grupos de convivência.

Se nos anos 70 este movimento estava apenas se iniciando, ou seja, grupos sociais buscavam através da luta dar visibilidade e legitimidade a distintos estilos de vida, a situação contemporânea é inegavelmente de consolidação desta diversidade e da convivência inevitável dos plurais. Essas representações diversas são muitas vezes contraditórias entre si, pondo em risco qualquer tentativa de unidade ou de certeza para os homens. A respeito disso, como já mencionei, muito se tem falado sob o rótulo de crise da masculinidade, tanto no campo da mídia quanto em discursos acadêmicos (Nolasco, 1993; Morgan, 1992; Badinter, 1994).

As revistas contemporâneas que analisamos, por se voltarem a um público "masculino", vão discutir de alguma forma o que significa "ser homem". Este movimento de colocar em questão a categoria ‘homem’ é o que torna as revistas interessantes enquanto objeto de estudo. Pois é neste movimento que se compreende a reflexividade no campo do masculino. Em outras palavras, a possibilidade (ou necessidade) de colocar em questão crescentemente a categoria homem ou masculinidade vai conformando um contexto onde os sujeitos perdem uma referência essencial e única (genérica) de masculinidade. As identidades dos homens se constituem, pelo contrário, a partir de uma diversidade de referenciais, muitas vezes contraditórios entre si. A necessidade colocada para o homem, defrontado com este contexto, é a de refletir sobre seu eu, sobre sua "masculinidade", afim de elaborar uma narrativa própria a respeito do seu gênero. Esta narrativa se materializa num estilo de vida ou num "estilo de masculinidade" específico.

Um exemplo claro deste questionamento feito à categoria ‘homem’ se encontra no texto a seguir: um trecho da seção "aos leitores", de Marco Antônio Resende, o diretor de redação da VIP:

Pergunta de 1 milhão de dólares: o que é ser homem hoje?

Oh, como era simples responder à pergunta acima há 10 ou 15 anos. O homem daquela era primordial – sem Internet, sem celulares ou TV a cabo, sem globalização, naturalmente provinciana – era um homem antigo. Puro e duro, dedicava-se sobretudo à competição profissional e dava largo espaço a ideologias. Restava-lhe pouca margem para a emoção, incluindo-se aí o que era considerado típico da esfera feminina – os prazeres estéticos, o convívio afável entre amigos, os cuidados com o corpo, uma versão lúdica da vida, o cultivo inteligente do tempo livre, a introspeção. O mundo muda, felizmente para melhor. Muitos dos pedidos ou sugestões que VIP recebe de seus leitores são de matérias sobre saúde, a cosmética e a aparência masculina. Qual é o melhor modo de se fazer a barba? Quais são os novos perfumes para o homem? É possível usar ternos de quatro botões no trabalho? Qual é a largura certa das gravatas?

Outros revelam interesse genuíno pelos prazeres da boa mesa (quais as vantagens da cozinha italiana sobre a francesa?), consumo de qualidade (que carro é melhor, Audi ou BMW?), e muitos querem, na medida do possível, atender e satisfazer a mulher (que presente dar a ela?).

São todos temas que estão sempre presentes em VIP. Fazemos a nossa revista respondendo, a cada número, aquela questão inicial: o que é ser homem hoje? (VIP, Agosto de 1997, pg. 11).

Um fator que vem à tona neste trecho, que posso generalizar para as outras revistas, é que colocar em questão a masculinidade evoca os outros referenciais possíveis, dos quais a VIP, por exemplo, quer se distanciar. Ou seja, particularmente penso que, se há a necessidade de se colocar em questão os interesses e desejos do homem, é porque estes não são mais tão óbvios para todos, ou não são compartilhados por todos os homens de forma generalizada.

A VIP se preocupa bastante com consumo: roupas, ternos, canetas, carros, restaurantes. E a necessidade de explicitar isso decorre da busca de diferenciação que permeia estes discursos reflexivos. Uma busca de se diferenciar da Placar, por exemplo, (que lida basicamente com futebol), de uma revista pornográfica ou de uma revista de negócios. Ao mencionar a mulher, ou tematizar o desejo do homem em satisfazer a mulher, a VIP também se distancia (embora mencionando intertextualmente) das revistas gays (como a Sui Generis), para as quais agradar a mulher não é um tema tão óbvio, nem ocorre no imaginário conceitual de heterossexualidade. A VIP surgiu nos anos 80 como encarte da revista EXAME. Hoje, com mais ou menos 5 anos de vida como revista independente, busca um novo mercado, virtualmente inexplorado no Brasil, conjugando masculinidade e interesses tidos tradicionalmente como femininos: moda e consumo basicamente. Mostrando reportagens sobre o corpo, a saúde, a aparência do homem e dando dicas de consumo associadas a um estilo de vida determinado (o homem de bom gosto, que vai se definindo ao longo da revista), a VIP traz para o público masculino uma abordagem e uma atitude preocupadas com estilo, aparência e informações já bastante comum em revistas femininas como Claudia, Elle, Marie Claire, etc.

Isto significa que a moda, na forma do estilo, invade o terreno do masculino com força crescente. O estilo é buscado pelo agente/consumidor de acordo com as suas representações acerca dos signos (ou conteúdos simbólicos, como coloquei no início), associados aos produtos: com quais produtos, e com qual masculinidade, eu desejo me associar? Utilizando-se dos comentários, críticas especializadas, opiniões dos experts, etc., o agente reflete acerca destes conteúdos simbólicos afim de "escolher" os produtos e os signos que serão consumidos, que se relacionam com a masculinidade diferenciada que ele busca para si. Esta construção de estilos de vida diferenciados é, como coloquei anteriormente, a materialização da pluralidade da vida social contemporânea e dos mecanismos de reflexividade e auto-monitoramento, tão centrais na formação da individualidade.

Quando se fala em reflexividade, vale ressaltar que ela não se compromete politicamente com nenhuma tendência, como o feminismo e o machismo; a maior colocação do homem em discurso não significa necessariamente uma atenuação do machismo, pois este machismo pode ser reflexivo também. A reflexividade é função do contexto e do imaginário dos sujeitos que a compõem e a constróem. Ou seja, através destes sujeitos se articulam as relações de poder. Algumas masculinidades têm mais legitimidade do que outras e, como já mostrou Morgan (1992), se legitimam exatamente em oposição a outras masculinidades "desviantes", assim como em oposição ao feminino em suas várias formas. Por exemplo, analisemos o seguinte texto:

Como…conduzir uma mulher pela rua:

Um cavalheiro pode ser reconhecido como tal – e como legítimo proprietário e protetor da dama que tem ao lado – nas seguintes situações… (VIP, Agosto de 1997, pg. 28).

O autor vai em seguida enumerar uma série de situações. Apesar da aparente ironia do texto ao falar em "proprietário", a conotação machista é bastante clara, pois o homem conduz a mulher, toma a iniciativa, etc. Ou na seguinte publicidade de duas páginas publicada na Playboy. Numa, a foto de um par de botas de couro. Na outra, a frase em letras garrafais: "É muito macho, mas faz limpeza de pele toda semana" (Playboy, Agosto de 1997, pg.130). Aqui a publicidade trabalha com a oposição entre macho/limpeza de pele, ou entre masculinidade/preocupação com beleza. De forma interessante, busca-se conciliar os pólos opostos; ser macho não exclui a limpeza de pele, apesar de o senso comum dizer o contrário. Não se perde a masculinidade preocupando-se com a beleza das botas. A "masculinidade" do produto vai se afirmar muito mais no estilo da bota, no seu conteúdo estilístico (evoca dureza, couro, força, cowboys, virilidade, andar firme) do que no fato de ela estar estilizada ou não.

O trabalho de Maria Celeste Mira (1997) auxilia bastante na compreensão deste fenômeno de segmentação do mercado e seu significado, a partir de um histórico da Editora Abril, a qual publica três das quatro revistas que analisei e é dominante no mercado de revistas brasileiro. Para Mira, dos anos 70 para cá, houve um intenso processo de segmentação do mercado editorial. Neste período concebeu-se que o produto oferecido (a revista) deveria buscar cada vez menos um espectro amplo de gostos, para se concentrar cada vez mais em interesses específicos, às vezes fugidios e transitórios, de grupos menores de consumidores e anunciantes. Se nos anos 50 e 60, inclusive por conta de um período nacionalista da política brasileira, as revistas buscavam grandes temáticas e buscavam uma identidade ou grupo de identidades centradas e abrangentes ("a mulher brasileira", "a família brasileira"), nos anos 70 em diante, partir de uma crescente inserção do país em processos de globalização, os interesses se segmentam, o mercado torna-se cada vez mais instável e, para sobreviver, as revistas têm que buscar cada vez mais estes interesses localizados, como música, computação, surf, skate, etc.

Trata-se de um leitor que obriga todas as revistas a se reformularem constantemente; um leitor que leva as editoras a sondar seus desejos para descobrir novos nichos de mercado, num processo de segmentação dentro do meio, e da indústria cultural em geral, que se acelera nos anos 70; um leitor por cuja atenção e fidelidade, a competição aumentará cada vez mais. (Mira, 1997:151).

É dentro deste contexto que revistas como a VIP surgem, para suprir um nicho de mercado específico, e frente ao fato de que uma identidade excessivamente centrada como "homem" não faz mais muito sentido para o leitor. Isso significa que não é mais possível para uma revista abrigar a totalidade de interesses existentes entre o público masculino somente, pois este se diversifica e busca referências mais amplas. Revistas como Senhor, ou mesmo a Playboy ou Status de antigamente tinham a pretensão de dar conta de todo o espectro de interesses masculinos, desde as mulheres, até a literatura, a política, o consumo e a saúde. Isso hoje não é mais possível nem mesmo faz nenhum sentido mercadológico, onde o marketing e a propaganda buscam canais especializados para divulgar produtos de um interesse cada vez mais segmentado, e sendo a concorrência feroz mesmo nos nichos mais estreitamente delimitados.

Ou seja, cada vez mais a revista busca se identificar com um estilo de vida específico dentro do mundo dos "homens", como forma de se aproximar de seu público e afim de atrair propaganda e anúncios que se aproximam da atitude da revista (Mira, 1997). Ocorre então, neste contexto atual, uma sinergia desses dois vetores, que leva à segmentação do mercado de revistas masculinas (e do mercado em geral), e à dispersão dos interesses masculinos, que não se identificam mais com uma postura unificada.

Giddens sugere, para a compreensão do contexto atual, o conceito interessante de sociedade pós-tradicional (Giddens, 1997). Este conceito fornece possibilidades explicativas interessantes também para entender a convivência de propostas e referenciais plurais e discrepantes sobre masculinidade, presentes nas diversas revistas masculinas disponíveis numa banca de jornal. A tradição, diz Giddens, é por definição, um conjunto fixo de preceitos dentro dos quais o sujeito vive, preceitos que expressam a "verdade" das coisas e que adquirem um estatuto metafísico de verdade. O contexto atual é de multiplicidade, e ao invés de uma tradição temos múltiplos referenciais igualmente "legítimos", ou competindo em pé de igualdade pela legitimidade. Como disse anteriormente, o sujeito aqui é "forçado" a fazer escolhas constantemente no decorrer do seu dia a dia.

Um exemplo interessante a ser colocado em questão são as revistas gays. Isso porque o que unifica esse público, o fato de gostar, de ter desejo por pessoas do mesmo sexo, é radicalmente contra aquilo que todas as outras revistas masculinas colocam como pressuposto: homens gostam é de mulher. Pode-se dizer que na sua base, o definir-se como gay coloca em questão o aspecto menos discutido e mais celebrado pelas revistas masculinas em geral: o desejo "instintivo", "natural", "obrigatório" dos homens pelo sexo oposto. A partir do momento em que se aceita a convivência com os gays, como é fácil de ver nas bancas de jornal, nas quais todas as revistas convivem legitimamente, a naturalidade e a obviedade do desejo natural dos homens pelas mulheres perde o sentido automaticamente, pois aceita-se como mercadologicamente legítimo que existam homens que desejam outros homens.

Isso não é dizer que as revistas gays são vistas em pé de igualdade com as outras revistas ou que, na sociedade como um todo, o estilo de vida gay possui a mesma legitimidade do que os outros estilos possíveis. O preconceito e a discriminação são dados do cotidiano de qualquer um que abrace esse estilo de vida, ou se identifique com ele. Grande parte do estilo de vida gay se associa com marginalidade, perigo e caos de maneira geral (AIDS, promiscuidade, entre outros aspectos pejorativos são associados aos gays como um todo).

A publicação de maior sucesso nacional destinada ao público gay, a Sui Generis, impôs-se em grande medida buscando associar ao estilo gay outros referenciais diferenciados: cultura, artes, música e consumo de alto padrão. Diferentemente da maioria das revistas gays disponíveis até então, que apelavam quase que exclusivamente à pornografia. No seguinte editorial, a revista demonstra uma das suas características recorrentes: colocar em discurso a questão do "ser gay", discutir abertamente o preconceito e firmar uma atitude contra o preconceito:

Nos filmes de suspense ou terror, ainda mais se têm roteiros meio convencionais, uma coisa é certa: cuidado! O monstro ainda não morreu. Não relaxe na poltrona se tudo o que rola na tela parece ter sido resolvido, porque o susto vem quase sempre garantido. É assim com o preconceito. A gente vai se animando, comemorando as pequenas vitórias e, quando pensa que as mentalidades evoluíram, o monstro levanta do pântano, horrendo, disposto a dar cabo do casal do bem que, a caminho de casa, já respirava aliviado.

<...>.

O Domingão do Faustão levou ao ar um exemplo. Estavam lá para ser entrevistados o ator Marcelo Faria e seus colegas <...>. Ele respondeu aproximadamente assim, ao ser exposto pelo apresentador a uma situação envolvendo homossexualidade. "A sexualidade é opção de cada um. Mas eu, graças a Deus, sempre estive do lado normal." Como assim? Marcelo não é filho de um ator top? Não faz parte de uma novíssima geração (ele não tem nem 20 anos)? Não recebeu, provavelmente, educação adequada? Ele no entanto acha gays ok, racionalmente falando, mas no íntimo julga-os anormais? Como tantas outras pessoas, é isso mesmo que o ator acha, saiba ele ou não. (Sui Generis, pg. 4).

Robert Connel (1995) é um autor preocupado em afirmar as relações de poder que permeiam esta diversidade de identidades possíveis.

O que se entende por "masculinidade"? Deixem-me oferecer uma definição - breve, mas razoavelmente precisa. A masculinidade é uma configuração de prática em torno da posição dos homens na estrutura das relações de gênero. Existe, normalmente, mais de uma configuração desse tipo em qualquer ordem de gênero de uma sociedade. Em reconhecimento desse fato, tem-se tornado comum falar de "masculinidades". Existe o perigo, nesse uso, de que possamos pensar no gênero simplesmente como um "pot-pourri" de identidades e estilos de vida relacionados ao consumo. Por isso, é importante sempre lembrar as relações de poder que estão aí envolvidas. (Connel, 1995:188).

Nessa citação nos interessam dois aspectos. Primeiro, a crítica que dela podemos retirar à uma visão ingênua da reflexividade, que ignora as relações de poder que perpassam as diferentes masculinidades e as suas relações entre si e entre feminilidades, ou seja, a "ordem de gênero" da sociedade. Aqui Connel se aproxima mais de Foucault e das feministas pós-estruturalistas (posso citar Scott, 1988a e 1988b, e Poovey, 1988, por exemplo). Ou seja, os sujeitos se encontram em posições desiguais de poder ao se filiar a este ou àquele estilo de vida. Os discursos dos sistemas abstratos, ou seja, as interpretações e signos que circulam a respeito da masculinidade na mídia e nas instituições veiculam não somente possibilidades identitárias, significados, mas poder. Os signos criam (e se estabelecem em) relações de poder tanto entre homens como entre homens e mulheres.

Um segundo aspecto do texto de Connel é a sua definição de masculinidade como plural, múltipla, inserida numa ordem de gênero que permite esta variedade de composições. Esta visão, que também é a de Morgan (1992) e das feministas em geral, pode ser vista como um sinal dos tempos em que vivemos, onde o gênero é pensado como plural a partir das críticas feitas sobretudo a partir do pensamento feminista. Como ressalta Morgan, esta crítica não se restringe a discussões acadêmicas, mas interfere nos próprios mecanismos de produção social do conhecimento (Morgan, 1992). Ou seja, as mulheres, ao penetrarem em instituições de ensino, no mercado de trabalho ou em outras instituições, participam mais ativamente dos processos de produção do conhecimento e de produção de interpretações populares deste conhecimento erudito ou científico. A mídia, aí ressaltando as revistas, são um exemplo de locus por onde circulam e são veiculadas interpretações e discursos sobre os sistemas abstratos. Ao participar, as mulheres dão novas feições a estes mecanismos, que são exatamente os mecanismos de reflexividade que tanta força tem nas identidades contemporâneas.

Conclusão

O que significou a mudança de postura frente à masculinidade tradicional ocorrida nos anos 70, em luz da discussão sobre a contemporaneidade? O surgimento de discursos críticos, que atacavam frontalmente a naturalidade da posição tradicionalmente superior do homem e a naturalidade da heterossexualidade como única opção natural de vivenciar a sexualidade, criaram um dilema para este homem tradicional, que se viu forçado a enfrentar o fim da dominância da tradição no âmbito das relações entre gêneros, assim como a pluralização dos estilos de vida. Ambos, o fim da masculinidade genérica e a pluralização, viram-se legitimados por discursos científicos, acadêmicos, políticos e culturais e se materializaram, também, a partir do consumo. As novas masculinidades e feminilidades que surgiam encontravam um mercado ansioso de explorar novos nichos, como a cosmética para homens, casas noturnas com estilos específicos, cigarros somente para mulheres, etc.

De repente, ser homem não se limita mais a realizar um modelo único e supostamente universal de macho, que incluía a subordinação da mulher, a heterossexualidade compulsória, a inserção no mercado de trabalho como "provedor do lar" e a irrelevância de uma esfera mais subjetiva, como sentimentos e estética. A partir desses movimentos críticos, que questionavam esse modelo único e sua universalidade, ser homem passa necessariamente por um conflito entre diferentes "estilos de masculinidade", associados a diversos estilos de vida muitas vezes contraditórios entre si. Ora, ser a favor do feminismo não admite o tipo de violência contra a mulher que um "machão" tradicional consideraria admissível. Ou, ter relações sexuais com homens vai completamente contra os pressupostos daqueles que acham que o fim último de um homem é casar com uma mulher. O conflito então é inerente a esta nova realidade, e a incerteza provém do fato de que a própria existência de múltiplas masculinidades acaba com a universalidade de um único modelo.

Devemos frisar que as representações sobre o homem nas revistas não ocorrem num vácuo, mas sempre dialogam com as outras representações existentes. Isto se torna ainda mais explícito num contexto de extrema diversificação como é o atual, no qual surgem, e buscam legitimidade, os mais diversos modelos de masculinidade para os homens. Por exemplo, o próprio fato de existirem várias revistas gays no país, como já colocamos, é um elemento importante de diálogo para as outras revistas, pois a identidade gay renega exatamente aquilo que parecia ser o último referente estável e universal de masculinidade, a heterossexualidade compulsória (Almeida, 1995). Mas há uma variedade de estilos e modos de vivenciar a negação deste referencial tradicional, e em torno desta negação as revistas procuram se opor ou estabelecer relações de complementaridade, na disputa pelo mercado

A partir deste exemplo podemos ver como representações de masculinidade discrepantes entre si são formatadas da mesma forma e se articulam de forma parecida no interior destes promotores de consumo e veículos de reflexividade que se constituem as revistas. Neste contexto, aparentemente, fronteiras ou definições de homem extremamente rígidas ou que buscam a universalidade vão perdendo o sentido. Giddens (1991) menciona que é exatamente a mercantilização dos símbolos um dos fatores de padronização, indo um pouco contra a tendência de pluralização e liberdade de escolha para o indivíduo. Aqui a padronização se refere não aos conteúdos de estilo, mas à forma como estes estilos se materializam, ou seja, através do consumo de bens, serviços e informações no mercado. A formação e construção de estilos de vida e identidades na atualidade ocorre portanto largamente através do consumo de mercadorias específicas, signos, objetos, informações, serviços, carregadas de valor simbólico e que vão compor uma unidade coerente enquanto proposta de estilo.

As mudanças no modo de se representar e vivenciar a masculinidade, portanto, insere-se neste contexto de reflexividade e incerteza ontológica. Esta também é a interpretação que busco construir sobre isso que é chamado de "crise da masculinidade". Nolasco (1993) mostra um pouco desta incerteza existencial masculina ao pesquisar um grupo de homens no Rio de Janeiro. A incerteza quanto ao "ser homem" se torna um fator definidor da subjetividade daquelas pessoas, que se vêem obrigadas a conviver com a pluralidade de gênero, ao mesmo tempo em que persistem cobranças quanto a uma virilidade mais tradicional. Na introdução ele escreve, a respeito do processo de pesquisa:

A tentativa de sistematizar a maneira como os homens se viam, bem como de identificar o que eles imaginavam ser a expectativa social em relação a um homem, deixou de ser o foco central de minhas análises a partir do registro da elevação do nível de tensão e angústia quando falávamos sobre: o significado de ser homem; a relação com o pai; a maneira como desconsideravam suas emoções quando faziam suas escolhas profissionais e afetivas. Nos depoimentos havia solidão, sofrimento e uma tensão premente, difícil de ser identificada e assumida no cotidiano.

Ao falar sobre suas vidas, esses homens percebiam seu incômodo em representar, e ao mesmo tempo acreditar, no papel desempenhado pelo machão. Apesar de não se identificarem com este modelo, reconheciam que o reforço recebido em família, na escola e nas relações sociais os levara a adotar modelos viris, determinados e agressivos. Ser homem ficou reduzido a ser macho. (Nolasco, 1993:11)

Toda esta tensão pode ser lida, para concluir, a partir da angústia existencial proporcionada pelo novo contexto. Os homens são levados a refletir sobre si mesmos, dentro e fora de grupos de homens, dentro e fora da classe média (esfera na qual Nolasco concentrou sua pesquisa), ao se defrontarem com modelos não convencionais de masculinidades e ao se perguntarem, a todo momento: será que sou homem? Com isto volto a Marco Resende e a revista VIP, para concluir o artigo. Segundo ele, ser homem se associa àquele modelo otimista e de classe alta, que aceita com prazer as mudanças e vive de forma intensa esta reflexividade através do consumo. Para outros homens, como diz Nolasco, este questionamentos traz a angústia da incerteza acerca de sua orientação sexual, de sua virilidade, e de sua capacidade de conviver com esta pluralidade.

A meu ver a crise atual é extremamente sadia, por balançar modelos naturalizados de masculinidade que contém em si embutidas relações desiguais de poder. Uma maior reflexividade no campo da masculinidade, e uma conseqüente fragmentação dos homens em diferentes estilos de vida pode oferecer a oportunidade política de combater preconceitos e buscar uma maior aceitação da pluralidade como natural e desejável. Os modelos tradicionais de masculinidade, no qual o homem dever ser o "machão dominador" e que estabelece uma relação desigual entre homens e mulheres parece estar perdendo fôlego frente a este contexto mais plural, e cabe a nós, ao tomar consciência deste processo, trabalhar na direção de celebrar e vivenciar esta pluralidade cada vez mais presente.

 

Referências Bibliográficas

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Revistas Consultadas:

Ele Ela: uma revista para ler a dois:

ano 1, n° 2, janeiro de 1969;
ano 1, n° 8, dezembro de 1969;
ano 2, n° 20, dezembro de 1970;
ano 2, n° 21, janeiro de 1971;
ano 2, n° 23, março de 1971;
ano 3, n° 29, setembro de 1971;
ano 3, n° 30, outubro de 1971;
ano 3, n° 36, abril de 1972.

VIP: o que a vida tem de bom. Ano 16, número 8, Agosto de 1997.

Playboy. Ano 23, número 265, Agosto de 1997.

Sui Generis. Ano 3, número 25, Agosto de 1997.

Placar: Futebol, Sexo e Rock & Roll. Número 1130, Agosto de 1997

 


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